
A Torreira é mais do que uma segunda casa. É (numa daquelas soluções provisórias que sem querer passam a definitivas) a minha casa mesmo pelo Inverno. E o Inverno é particularmente saboroso por aqui. Existem apenas dois males que nos complicam a vida: o primeiro é a água (feita a pior e mais corrosiva humidade) e o segundo a EDP.
A empresa monopolista que distribui, em Portugal, a energia eléctrica é, contra todas as normas de bom senso e todas as regras que protegem as pessoas, o maior exemplo de mau serviço, incompetência e arrogância. É, ainda, uma das principais razões para que Portugal seja, claramente, um país com serviços de terceiro mundo. Da infindável quantidade de postes e cabos que, contra todas as normas de planeamento e asseio urbanístico, são uma das maiores fontes de poluição visual do país, à insuficiência das estruturas, às falhas contínuas e indesculpáveis de energia, à arrogância de o poder fazer e continuar a dar lucros escandalosos, a EDP é o triste retrato de um país que não sabe cuidar dos seus cidadãos nem olhar pelo seu bem estar.
A Torreira é vítima, há anos, dessa indesculpável incompetência e quem por aqui mora acabou por se resignar a esta sina: aos primeiros pingos de chuva na serra, na Torreira começa a falhar a luz.
Tristemente este é, em muitos aspectos, o retrato de um concelho que não podia ser mais do litoral, mas onde as coisas se passam como se estivessemos no mais profundo interior. Por aqui progresso quer dizer estradas largas e gente ao Domingo e as tímidas evoluções que as iniciativas municipais vão trazendo não conseguem disfarçar os problemas graves: o empobrecimento, o envelhecimento, o desinteresse das mais novas gerações da população emigrada, a falta de emprego.
No meio das obras da estrada que duram há demasiado tempo e que foram outra prova de falta de respeito pelos cidadãos, as Estradas de Portugal e o empreiteiro que contrataram, conseguiram rematar com um apontamento de uma ironia quase inacreditável. A dias do Natal e numa placa que, é certo, apenas durou um dia, aquilo que chamaram à Murtosa é uma fiel ilustração da conta em que o Estado tem esta terra.